Newsletter Semanal da FIESC  |  nº 586  |  14.11 até 21.11.2018  |  FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Com rombo no casco não faremos travessia, diz economista


Gerente-executivo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco (foto: Miguel Ângelo)
O novo cenário político abre novas perspectivas econômicas para o Brasil. Nesta entrevista o gerente-executivo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, posiciona a indústria brasileira diante deste cenário e comenta aspectos da agenda da competitividade proposta pela CNI. Para que a indústria possa recuperar a participação no PIB que perdeu nos últimos anos é preciso avançar nessa agenda, que inclui o combate aos componentes do Custo Brasil, a obtenção de segurança jurídica, maior inserção internacional e estímulo à inovação. Mas nada disso será suficiente se o setor público não equilibrar as suas contas e fechar o "rombo no casco do navio".

Diz-se no mercado que a recuperação da economia já está contratada para 2019. Isso vale para a indústria?
Nada é contratado, tudo precisa ser trabalhado. Mas é fato que no processo de mudança de governo há sinalizações claras de que problemas fundamentais da economia brasileira serão atacados.

Quais são os pontos críticos para que haja uma verdadeira retomada?
Temos um grande rombo no casco do navio, que é o déficit fiscal. Não dá para lançar esse navio no mar porque evidentemente não teremos sucesso na travessia do oceano. Essa é uma questão emergencial que deve ser atacada com grande determinação e afinco. Temos a necessidade da reforma da previdência e de maior eficiência ao estado, principalmente em relação à folha de pagamentos de união, municípios e estados. Esta questão precisa ser equacionada para que possamos ter previsibilidade, visão de longo prazo. E para voltar a crescer temos a agenda da competitividade, que inclui enfrentar os fatores sistêmicos do Custo Brasil, como as distorções do sistema tributário e questões ligadas à infraestrutura e às relações de trabalho. Outro aspecto importante é assegurar maior segurança jurídica para as empresas. Há questões regulatórias críticas que impactam o ambiente onde elas operam, afetando sua confiança no futuro e sua predisposição de investir. É importante para empresas de menor porte, porque elas estão sujeitas a oscilações, como também para os grandes projetos de investimentos de infraestrutura que precisamos atrair. E há ainda as políticas de estímulo ao setor industrial, que precisam ser desenhadas ou avançadas para permitir uma maior integração ao cenário internacional e maior investimento em inovação e absorção de tecnologia. É com isso que ganharemos competitividade em longo prazo.

Para reduzir o déficit fiscal muito se fala em mexer nas desonerações da indústria. O que acha disso? 
Não pode ter aumento de carga tributária. O sistema tributário é um dos fatores que geram distorções para a competitividade, e muitas vezes essas distorções são minoradas pelos incentivos fiscais, tanto no plano federal quanto no estadual. Esse não é o quadro ideal. O ideal seria termos uma mudança no sistema tributário que eliminasse as distorções. Claro que é um processo mais longo. Hoje em dia muitos projetos estão viabilizados por benefícios tributários, eles estão na raiz da existência de vários empreendimentos. Para mexer precisamos ao menos de uma agenda de transição, isso não pode ser feito de uma forma abrupta.

Como estão o ânimo do industrial e aspectos como a ociosidade e a capacidade de investimento para engrenar um processo de retomada?
Há maior otimismo, os indicadores de confiança estão gradualmente melhorando. Passadas as incertezas eleitorais e na esteira de decisões relativas à política econômica deve haver uma resposta positiva. Há baixa utilização da capacidade instalada. Na média, a indústria está quatro pontos percentuais abaixo do que estava no início da crise em 2014. Há, portanto, um espaço para crescimento sem grande esforço de investimento. De outro lado, a lucratividade das empresas foi grandemente afetada, limitando sua capacidade de alavancar recursos para investimentos. Os recursos próprios sempre foram uma base muito grande para os investimentos da indústria brasileira. Grosso modo, dois terços dos investimentos são feitos com recursos próprios. As empresas gostariam de ter mais recursos de terceiros, mas o custo é elevado e não há disponibilidade. Nesse sentido precisamos ter uma agenda não só para o financiamento do crescimento, como também para melhorar a capacidade operacional das empresas com capital de giro. Há muitas dificuldades para isso também, porque o custo é elevado e o sistema de garantias não funciona. O governo eleito deveria estar atento para melhorar as condições financeiras das empresas, primeiro para as condições operacionais e num segundo momento para o financiamento da expansão.

Um dos setores mais deprimidos é o da construção civil, que está entre os maiores geradores de empregos. Qual é o cenário para o setor?

Esse setor tem duas vertentes: grandes obras de infraestrutura de um lado e o segmento de construção habitacional de outro. Os dois foram fortemente atingidos pela crise fiscal e problemas associados a questões judiciais, que envolvem grandes obras e grandes empresas. Com a crise fiscal o governo deixou de direcionar recursos para as obras de infraestrutura, e também há dificuldades nos processos de concessão e privatização. Precisamos resolver as questões tanto do investimento quanto do financiamento ao investimento em infraestrutura para dinamizar o setor. No caso da habitação, a crise fiscal reduziu drasticamente os programas como o Minha Casa, Minha Vida. Além disso, com o desemprego, muitas famílias evitam assumir compromissos de longo prazo. Como é um setor altamente dependente de financiamento de longo prazo, a instabilidade afeta drasticamente a visão dos agentes econômicos. Então, além de resolver as incertezas é preciso tapar o rombo da caixa do setor público.

Diante desse cenário, como melhorar a situação da infraestrutura logística?
Atraindo capitais privados por meio do sistema de concessões e com privatizações. O estado está quebrado, falido, não tem condições de fazer grandes investimentos. O investimento público caiu substancialmente nos últimos anos e está em seus níveis mais baixos. Só com boa regulação e projetos de concessão com segurança jurídica para assegurar às empresas a previsibilidade de retorno de capital é que o setor será estimulado.

O Brasil perdeu participação no comércio global de industrializados. Quais seriam os fatores determinantes para uma reversão desse quadro?
Nossa política comercial deve acelerar os processos de negociação e de acordos comerciais com outros países, levando adiante as negociações bilaterais, além de destravar questões burocráticas. A outra vertente é a agenda mais central da competitividade, e aí temos que avançar fortemente. O Brasil perdeu competitividade por conta das ineficiências sistêmicas e devida a uma taxa de câmbio que ficou muito tempo sobrevalorizada. Isso aconteceu por causa da grande entrada de recursos das exportações do agronegócio e dos fluxos financeiros resultantes da grande liquidez internacional. Mas equacionar a taxa de câmbio não é suficiente. Precisamos atacar os pontos críticos da agenda da competitividade. No caso das exportações de manufaturados temos ainda que nos adaptar ao tipo de produto que é dinâmico no mercado internacional, com destaque para as questões tecnológicas associadas às mudanças de design e da funcionalidade dos produtos. Também precisamos adaptar os nossos processos para as mudanças que já estão ocorrendo no cenário de indústria 4.0. É extremamente crítico que as empresas brasileiras estejam preparadas para as mudanças nos sistemas de produção que a indústria 4.0 vai trazer.

Internamente, em relação ao PIB, a participação da indústria também é declinante. Há perspectiva de que ela volte a crescer?
De fato a participação tem encolhido, principalmente a da indústria de transformação. A construção também já foi maior, mas para esse segmento a recuperação pode ser mais fácil e rápida devido aos fatores já expostos. Já no setor de manufatura é mais complicado porque a competição internacional é muito grande. Por isso é fundamental avançarmos na agenda da competitividade, para que a indústria possa crescer acima da média do PIB. O período histórico em que o Brasil cresceu mais fortemente foi justamente quando a indústria cresceu mais do que o PIB. Vale notar que o processo de perda de participação da indústria no PIB ocorreu em diversas partes do mundo, mas no Brasil ele foi precoce e mais intenso do que o usual nas economias avançadas. Nosso objetivo é que a participação da indústria no PIB volte a aumentar. Isso depende de um ciclo virtuoso que inclui consertar o rombo do casco do navio e levar adiante a agenda da competitividade em relação à segurança jurídica e a problemas de custos que temos em relação aos nossos principais competidores. Com isso a confiança empresarial aumenta, o investimento privado vem, a produtividade se eleva e o país pode voltar a crescer a taxas de 3 ou até 4%.

 

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Edição:Filipe Scotti e Dâmi Radin

Reportagem:Dâmi Radin, Elida Ruivo, Ivonei
Fazzioni e Gabrielle Bittelbrun